quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Temor

O vento sibilando em meus ouvidos, o mar batendo nas rochas ao longe, e eu fingia te procurar. Andava olhando para os lados, atento, como se realmente quisesse te encontrar ali, temeroso com eu estava.
"Você sabe onde ela está. Só não quer encontrá-la."
Eu parei.
"Sim. Eu sei."
Dei meia volta, para me afastar de você. O medo do que poderia vir me fez pensar que eu não sabia onde te encontrar.
Mas eu sabia.

sábado, 29 de setembro de 2012

Fim.

Embora você estivesse bem ao meu lado, nunca esteve tão distante quanto ali. Podia sentir você escapar por entre meus dedos, e eu tentava, com todas as forças, te prender comigo, não deixar, mas você já não podia mais. Pus minhas mãos sobre e você, e pedi que lutasse, pedi que fosse forte, por mim. O pouco de força que você ainda tinha apertou minhas mãos quando uma tosse sacudiu seu corpo violentamente. seu rosto perdendo lentamente a cor. Onde estava o brilho que eu descobri nos seus olhos agora? Onde estaria a voz reconfortante que me faz feliz quando mais preciso? Minhas lágrimas caiam sobre seu coração fraquejante, e eu sussurrava para que ficasse. Mas você estava tão longe que nem gritos lhe alcançariam agora. E então, onde antes eu tinha o seu calor, sinto apenas frio.

sábado, 22 de setembro de 2012

Lembranças ao vento

Hoje eu achei um fio de cabelo seu aqui. Parece bobo, eu sei, mas achei. Estava dentro d'um dos livros que você me emprestou, uma das pontas sobressaindo dentre as páginas. Achei que fosse meu, a princípio, mas quando puxei, o tamanho comprido me disse que não. Além de você, havia sido eu o único a tocar nele nos últimos tempos. Logo, o cabelo era seu. O pus entre meus dedos e brinquei com ele um pouco. Achava que não daria tanta atenção a algo assim a essa altura do campeonato, mas o sol a iluminar aquele fio refletiu na minha mente memórias que há tempos eu vinha sufocando. Testei o fio, puxando suas pontas, e vi que era resistente... Por que não fora então o quer que nos ligava? Deixei por fim o vento carregá-lo, sem remorso. Assim como você, já não era mais meu.

sábado, 15 de setembro de 2012

Presente Fora de Época


                Alguns presentes são dados fora de época... São esses, por vezes, os que mais agradam, surpreendo quem os ganha. Foi assim que eu me senti outro dia, quando me peguei pensando em você e percebi que algo te fazia importante pra mim, justo você, que eu conheci agora há pouco. Talvez sejam seus olhos, ou seu sorriso, ou seu jeito; as risadas que eu dou com você, o jeito como você põe a cabeça no meu ombro, ou o olhar zombeteiro que você me lança às vezes... Alguma coisa nisso tudo te faz especial pra mim. Alguma coisa me faz, toda vez que me distancio de você, olhar para trás e querer voltar, só pra não sentir de novo aquela sensação de que está faltando algo. De que está faltando você.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Palavras Contidas

          Certa vez, um ser de grandes poderes, estudioso da mente e das emoções humanas, encantado com a capacidade de amar do ser humano, encontra um ser vil, cruel, feito apenas de ganância. Os olhos da criatura eram profundos, como um poço onde objetos de desejo caem e se perdem para sempre na sua insana obsessão, até que ele possa tê-los e amá-los, e cuidar deles, para que ninguém mais possa tê-los, ninguém mais, seus objetos.
           O ser sábio então decide realizar um experimento. Conhecendo o desejo da criatura por ouro, forja uma estatueta dourada, feita à imagem e semelhança do ser ganancioso. É feita bela, mesmo que a criatura em si seja horrenda, e encanta seu destinatário, pois além de ganancioso, este é vaidoso, e o desejo de  possuir sua própria imagem em ouro faz com que ele se dobre à qualquer um. Quando a brilhante estatueta cai na escuridão sem funda dos seus olhos pingando de desejo, ela está perdida para sempre.
            O sábio a oferece a criatura, dizendo porém que ela tinha certas condições especiais. Disse que ela iria se esvair com o tempo, e que o único modo dele mantê-la em suas mãos seria pedindo a estátua que ficasse. Porém, essa tinha vontade própria, e se não desejasse ficar no momento que fosse chamada à ficar, iria esvair-se com mais velocidade a cada pedido. O ser ganancioso, sua mente entupida de desejo irracional, aceita sem pensar, e toma em suas mãos o objeto, enquanto o ser mais poderoso finge ir embora e põe-se a observar seu experimento. 
          Nos primeiros momentos, o ser sorri, e se vê realmente feliz, por ter nos braços seu objeto máximo de desejo. Porém, ela começa a se esvair, a desaparecer lentamente. Ele procura não se desesperar, e a pede, com calma, que fique. Então ela vai retornando, os pedacinhos se encaixando novamente para lhe fazer sorrir novamente. E ele passa mais alguns momentos felizes. Após alguns tempo, a estatueta novamente começa a se desfazer, a soltar seus pedaços em poeira que flutua lentamente pelo ar. O ser ganancioso, vendo seu objeto de desejo, seu objeto de paixão, desfazer-se em frente aos seus olhos, olhos que começavam a lacrimejar, pede à estatueta que fique. E um grande bocado dela se esvai no ar. 
            Desesperado, ele chora. Pensa em pedir devagar, mais uma vez, com mais calma. E outro pedaço vai embora. Então ele decide que é melhor ficar calado. É melhor calar, e observar, agonizante, aquilo que você ama ir embora, perder-se, em vez de pedir, de implorar, e ver tudo ir embora de uma vez. Enquanto a poeira dourada se acumula, subindo aos céus, ele chora, chora por ter um mar de palavras dentro de si, e pela vontade insana de pedir que volte, de pedir que fique, de pedir que nada mais mude, para que ele seja feliz novamente. E não diz uma palavra. Não diz para aproveitar os últimos segundos daquilo que ama, sabendo que ela está lá, sob seus olhos, sob seu zelo... até que o último pedaço se vai, desfazendo-se no ar, uma parte da poeira prendendo-se aos seus olhos e fazendo o chorar ainda mais. E vendo o dourado no ar, ele, já tendo perdido aquilo que ama, pode soltar para ela tudo o que tem a dizer. Mas, pelo costume, não diz uma palavra.

domingo, 5 de agosto de 2012

Algo bom

{TEXTO FICTÍCIO}
           

      Quando o amor se distancia no tempo, você começa a pensar mais com o cérebro e menos com o coração. Você se torna mais racional, e percebe seus erros, palavras as quais deveria ter dado atenção, mas não soube dar. Percebo que você foi a calma onde em mim só havia ansiedade. A verdade onde eu só queria ilusão. Você foi a sensatez que diluiu minha paixão – porque sim, paixão é loucura – soltando as amarras que me prendiam à você. Eu estava preso, a sede por liberdade invisível fronte ao fogo da paixão. Naquele dia frio, você quebrou minhas correntes e me deu algo melhor: o caminho da sua casa. Agora eu posso estar com você quando eu quiser, não mais preso indefinidamente naquela jaula de sentimento insano. Agora eu não mais penso em você a cada segundo. Agora eu sou livre, e vou vivendo a liberdade que você me ensinou a viver, e não mais idolatro seu sorriso, seus gestos, seu jeito. Não. Apenas sei o quanto eles podem me fazer sorrir, e, ocasionalmente, eles passam por minha mente. Eu já sei o que eu sinto por você. Não amor, o qual desconheço. Não paixão, a qual não desejo. É algo ainda não nomeado, algo entre o bem querer e o desejo, fruto da amizade e dos caprichos do coração. Algo que eu aprecio sentir, pois já não mais me machuca, e sabe me fazer pensar com o cérebro enquanto uso o coração para suas devidas funções. Algo bom. Algo que quero compartilhar com você. Quando você quiser.  

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nunca mais

Antes que perguntem o que aconteceu, esse texto é fictício... kkkkkkkkk

Sim, eu me incomodo por você não estar aqui. Me incomodo por ter sido idiota, e só ter percebido agora. Me incomodo também, como se já não bastasse, por não ter feito você tão feliz quanto eu poderia ter feito.
Também me incomoda o fato de que já acabou, e eu não posso voltar no tempo; de que não sei se vou olhar de novo nos seus olhos e ver o mesmo brilho que já vi por estar comigo. Dói saber que eu não posso mudar nada disso.
Me incomoda que, quando eu penso em você, nem sempre isso me faz feliz. Me incomoda parar de ouvir músicas que eu gosto porque elas me lembram de você; e também sentar ao piano para tocar e lembrar de uma música que eu esqueci de tocar pra você, mas agora você nunca mais vai pedir. A verdade dói, mas a mentira mata.
Me incomoda a sensação de lágrimas nos olhos enquanto as palavras vão se formando na minha cabeça, e se misturando, fluidamente, com as imagens, e de repente eu estou ouvindo você dizer que me ama mais uma vez. E lembrando que nunca mais vou ouvir de novo.

domingo, 17 de junho de 2012

Felicidade

     Felicidade é uma metáfora. É uma metáfora pra representar algo ou alguém que te deixa bobo, sorrindo, chorando de alegria. É uma palavra pra descrever aquele sentimento de satisfação, aquela certeza de que agora está tudo bem, que não vão mais aparecer sombras na janela do seu quarto, e de que não tem mais nenhum monstro embaixo da cama.
     Felicidade é um prêmio, é um tesouro escondido na caverna do pirata, com ouro que embriaga no brilho incontido,e vicia, fazendo com que você esteja sempre atrás de mais. Felicidade é mais que um objetivo, é mais que uma conquista: é aquilo a que os homens, na cegueira de sua ingênua existência, buscam, guiados pelo olfato do destino. É um sorriso que diz mil palavras e um olhar que, sozinho, ergue montanhas.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cobras, amigos, sentimentos, hábitos, humanos.

     Despelar não é legal. Estou me sentindo uma cobra, com esses buracos em forma de bolha estourada na minha pele... Não é legal. Mas pelo menos é minha pele que está saindo – pele é tudo igual; mas e quem está se desfazendo de coisas que importam? E quem se despega de amigos, familiares, hábitos, sentimentos? Enquanto eu reclamo de um excesso de feiúra efêmero, existem pessoas despelando uma vida inteira lá fora. E o pior é que eu sei que vai acontecer comigo – intenso ou suave – mas isso vai acontecer. Acontece com todos.
     Vai chegar um dia em que eu vou ver que estou usando uma pele totalmente nova – e quando olhar para o que deixei pra trás, espero não entristecer, por ver amigos ali, por ver emoções, hábitos, facilidades que nunca duram... depois olhar para as mãos e ver nelas apenas lembranças.
      É preciso fazer isso. Sempre acontece, não há como evitar. Mas eu tenho certeza que tudo vai estar bem quando acabar – quando a pele nova me envolver por completo. Só não quero esquecer daqueles que fizeram parte do que veio antes. Não quero. Quero manter o que puder do que tenho hoje, quero continuar sendo feliz. Talvez inocente, mas quem sabe? Eu espero levar meus melhores amigos pra sempre, e vou dar meu máximo para isso. Porque ninguém despela o corpo todo – não humanos, pelo menos, esqueçamos as cobras – e o que é velho as vezes é melhor do que certas coisas novas. Quem não já se sentiu atraído pelo desconhecido, por pessoas, coisas, sentimentos que se mostraram ser nem tudo o que realmente eram?
     Não quero, então, me desfazer de tudo. Vou dar adeus ao que não vou precisar e levar comigo aqueles que couberem na mala. Nem que todos viajem bem apertados, entupindo meu coração cada vez mais cheio. Estou me sentindo uma cobra. Despelar não é legal. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A outra forma de ver

     No início desse ano, recebemos um aluno cego em nossa sala de aula. Era o primeiro integrante da turma com alguma deficiência, e alguns não sabiam lidar com isso. Faziam brincadeiras, deboches e até mesmo atazanavam o pobre coitado - infantilidade, diziam os professores, mas a infância normalmente é sinônimo de inocência; o que eles faziam era perversidade. Mas ele era uma pessoa boa, e nunca perdia a paciência. Pouco tempo antes de eu e ele começarmos um amizade, passou-se um caso interessante.
     Uma garota da nossa sala, Marília, começou a conversar com Nataniel (o garoto) desde que ele chegou na sala. Andavam juntos para todos os cantos, ela o acompanhava onde quer que ele fosse e estavam sempre conversando. Formavam um casal bonito, e era bom ver os dois juntos; Marília nunca tivera muitos com quem conversar, só algumas poucas amigas. Tachavam-na de feia, boba, ridícula... mas não era nada disso. Marília era extremamente divertida e inteligente, e tinha um coração puro, livre de maldades e de qualquer frieza. Se deu bem com Nataniel de imediato.
     Um dia, quando Nataniel já tinha feito alguns amigos, estes, conversando com ele, "alertaram-no":
     - Rapaz, tome cuidado... essa Marília é feia que dói! - e riam.
     Nataniel balaçou a cabeça em desaprovamento, o sorriso de todos os momentos no rosto.
     - Vocês esquecem que eu não tenho olhos... E essa privação me faz ver de outra maneira. Diferente de vocês, enxergo com o coração, como todos deveriam enxergar; isso faz da minha cegueira não uma deficiência, e sim, uma virtude. Vejo as pessoas como elas são, e, se enxergassem como eu, veriam o quão bonita ela realmente é.
     Aquilo me fez pensar. Sim, a maioria de nós vê com os olhos - mas não nos seria melhor, e mais vantojoso, ver com o coração? Talvez assim pudessem ser evitadas tantas futilidades do mundo humano, talvez assim pudessesmos ver todos como realmente são, e dar a cada um o valor que merecem. Talvez assim, não excluíssemos quem apenas por um detalhe é diferente de nós, e aí sim seríamos, pelo conceito que nós mesmos estabelecemos, humanos. Nataniel me ensinou algo que vou levar para a vida inteira naquele dia, e espero que muitos outros ainda possam aprender com ele - pois mesmo sem seus olhos, ele consegue ver muito além de pessoas que dizem enxergar perfeitamente.